Boneca com órteses auxilia no tratamento de crianças deficientes em Teresina

Uma paciente bastante especial tem chamado atenção durante as sessões de terapia psicopedagógica do Centro Integrado de Reabilitação (Ceir) em Teresina. É a pequena Lili, uma bonequinha de cabelos castanhos e vestido florido que tem um importante detalhe: ela possui órteses nas pernas e nas mãos iguaizinhas às usadas pelas crianças com deficiências psicomotoras.

A boneca Lili participa das sessões de terapia psicopedagógicas junto com crianças de 1 a 4 anos de idade que têm paralisia cerebral ou outras deficiências. A boneca realiza as mesmas atividades que os pequenos, e tem sido usada pelas psicólogas e pedagogas do centro como uma ferramenta para estimular as crianças no tratamento e ajuda-las a aceitarem melhor as órteses.

Já no primeiro encontro a boneca conquistou a pequena Larissa, de dois anos e cinco meses. De acordo com a mãe de Larissa, a comerciante Francisca das Chagas, a menina não gosta de nenhuma de suas próprias bonecas. “Ela tem medo de bonecas. As dela ficam todas guardadas. Já com a Lili ela viu e gostou. Eu creio que é por causa das órteses, que ela também tem”, disse Francisca. “É muito bom você ter uma boneca como ela para ajudar no tratamento. Ela se identificou com a Lili”.

A boneca Lili chegou ao Ceir através da comerciante Shirley Oliveira, mãe do Lucas, de três anos. “Ela nasceu de uma dificuldade que todas nós, mães, enfrentamos: as crianças não aceitam as órteses, que tira completamente o conforto deles”, relatou Shirley. A Lili foi um presente da pequena Clara, de sete anos, irmã do Lucas. “Ela já tem essa consciência, via a dificuldade do irmão em aceitar a órtese”, conta a mãe.

No Ceir, a Lili passou pelo mesmo processo que as crianças e ganhou duas órteses feitas sob medida: uma para a mão e outra para a perna, ficando parecida com a maioria das crianças que passam pelo tratamento. E assim começou a frequentar as terapias em grupos de seis a oito crianças.

De acordo com Shirley, a ideia fez grande diferença para seu filho Lucas. “Quando ele chegava na escola, ele tirava as órteses e jogava no lixo”, conta. Hoje, o Lucas tem uma foto da Lili no seu quarto. “Toda vez que ele queria tirar a órtese eu mostrava a foto e dizia: ‘Olha, a Lili também usa, você pode usar também. E ela não tira, ela é bem comportada’, e daí ele não tirava mais”, relata Shirley com um sorriso no rosto.

“A Lili é o modelo deles. É a amiguinha que participa de todo o processo, e ela faz parte de todas as atividades”, explicou a psicóloga Marta Soares, que faz parte da equipe psicopedagógica do Ceir. “Ela é uma integrante do grupo. Muitas crianças têm medo de fazer as atividades, mas quando a Lili vai primeiro, e a Lili não chora, elas se sentem encorajadas a participar”, disse Marta.

O trabalho visa estimular o desenvolvimento cognitivo das crianças para que possam ser inseridas na sociedade, e principalmente na escola. Segundo explicou a pedagoga Jucineide Cavalcante, o tratamento busca reduzir as dificuldades e barreiras que possam surgir por conta da deficiência das crianças, como o bullying. “É uma terapia diferente, por que a criança está interagindo com os diferentes lá fora e aqui com os iguais. A gente vê uma evolução excelente”, comentou Jucineide.

Além do grupo de crianças de 1 a 4 anos, a Lili também auxilia nos tratamentos de outras crianças do Ceir, de acordo com a necessidade. A boneca se tornou uma ferramenta de inclusão e representatividade para os pacientes do centro de todas as idades, e a equipe pensa até mesmo em expandir a ideia. Segundo a psicóloga Marta Soares, há um projeto, ainda em avaliação de se criar um boneco de um menino com um aparelho auditivo, para trabalhar outras demandas.

Fonte: https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/boneca-com-orteses-auxilia-no-tratamento-de-criancas-deficientes.ghtml