De vendedor de aspirador de pó a atleta olímpico, a história do ganês do skeleton

“O que você precisa para ter sucesso já está em você. É apenas uma questão de acreditar em si mesmo, trabalhar duro e nunca desistir”. Aos 8 anos, Akwasi Frimpong ouviu da avó Minka essa frase e nunca mais a esqueceu. Naquele dia, o pequeno menino africano deixava a casa da família em Kumasi, Gana, rumo ao desconhecido. A mãe, Esther, o deixara anos antes para tentar a sorte em Amsterdã, na Holanda, e agora estabilizada, o queria por perto. Ilegal no país, ele cresceu infeliz, com pouquíssimas oportunidades, mas encontrou no esporte a chance de sorrir. Tentou o atletismo, o bobsled, e 15 anos depois finalmente irá à Olimpíada. Em PyeongChang, Akwasi irá competir no skeleton, sendo o primeiro ganês da história da modalidade.

Para manter seus treinos, nos últimos dois anos ele percorreu incontáveis quilômetros nos Estados Unidos vendendo aspiradores de pó. Sem patrocínio, essa era a única alternativa: “Ninguém queria me ajudar. Todos diziam que eu era o garoto que tinha tentado a Olimpíada duas vezes e não havia conseguido”. Nada disso, porém, desanimou Frimpong. Lembrar o esforço da avó para alimentar os nove netos em uma casa de um comodo, de terra batida, eram motivos suficientes para nunca desistir.

– Isso mostra as pessoas que é bom ousar sonhar. Me diziam que eu não iria conseguir. Que iria falhar de novo. Que eu era o garoto da África que não havia conseguido. E eu tive que provar para mim mesmo o quanto eu estava disposto a isso. Agora coloquei Gana no mapa e espero ser uma inspiração para que os meninos de lá acreditem que tudo é possível – garante Akwasi, que é número 99 no ranking mundial e conseguiu classificação olímpica através da cota de representação do COI que dá chance a continentes que normalmente não conseguem classificação.

Lesão e o quase em Londres

A saga em busca de uma vaga olímpica começou aos 17 anos. Encorajado pelo técnico Sammy Monsels, Akwasi passou a treinar atletismo. Rapidamente se destacou nas provas de velocidade e tornou-se campeão holandês júnior dos 200m rasos em 2003. Mas ele ainda estava ilegal no país. E isso brecou sua evolução. Sem viajar para fora da Holanda por medo de nunca mais voltar, perdeu competições importantes e espaço. Uma lesão no tendão de aquiles também o atrapalhou. A falta de documentos o impossibilitava de ter ajuda médica. Foram quase três anos lesionado até que o fisioterapeuta Michael Davidson o ajudou cobrando a simbólica quantia de um euro.

Estudar também não era fácil. Nenhuma escola aceitava um aluno sem documento e o porto seguro só veio com o ingresso na Escola Johan Cruyff. Em 2007, ele finalmente conseguiu a permissão para ficar legal em Amsterdã e um ano depois ganhou a cidadania. A ida para os Estados Unidos aconteceu ainda em 2008. Com bolsa esportiva na Universidade de Utah, voltou a treinar o atletismo e por pouco não se classificou para os Jogos de Londres 2012. A seletiva holandesa dos 100m tinha como corte o tempo de 10s24 e ele conseguiu bater 10s45 em 2011. Ali morria o sonho olímpico pela primeira vez.
“Eu tenho esse sonho desde os 17 anos. Tive que continuar tentando tornar meu sonho realidade e acredito que isso inspira as pessoas mais do que simplesmente eu competindo”

Frustração no bobsled e vitória no skeleton

A não classificação para Londres mexeu com Frimpong. Foi quando o técnico de bobsled holandês Nicola Minichiello o convidou para um teste. A explosão do africano era vista como um trunfo e ele foi experimentado primeiro como breakman do 4-man em uma etapa da Copa do Mundo em Park City, nos Estados Unidos. Em 2013, Akwasi foi convidado para a seletiva de bobsled da Holanda para Sochi 2014. Mas ficou de fora dos trenós de dupla e 4-man. Ali morria o sonho olímpico pela segunda vez.

De volta aos Estados Unidos, formou-se em marketing e passou a trabalhar com vendas. Mas não desistiu do sonho olímpico. Resolveu então tentar um terceiro esporte. Com o aval do Comitê Olímpico de Gana, trocou a Holanda pelo seu país de origem e o bobsled pelo skeleton, esporte em que desce de barriga para baixo em uma prancha que desliza no gelo. Em 2018, Frimpong finalmente teve a confirmação de uma vaga olímpica através do critério de cotas do COI, mas em um primeiro momento, antes da conquista, a mãe teve um susto.

– Quando disse para ela que ia trocar o bobsled pelo skeleton e ela viu como era o esporte, me chamou de louco. Me perguntou porque não futebol (risos). Mas ela sempre me apoiou em tudo e desta vez não foi diferente. Quando consegui a vaga, ela ficou entusiasmada – confessa o atleta.

A técnica ainda não é a melhor, e em fevereiro do ano passado ele terminou em último lugar entre 44 atletas que participaram do Mundial da Alemanha. O discurso, contudo, é de otimismo.

“2018 é um bônus. Meu foco é Pequim 2022. Quero quebrar barreiras e mostrar que negros podem ir bem esse esporte. Usain Bolt, em sua primeira Olimpíada, em Atenas 2004, não foi às finais, então ainda há esperança para mim”

Em PyeongChang, o capacete de Akwasi terá o desenho de um coelho fugindo de um leão. Na imagem, o pequeno aninal escapa por entre os dentes do seu predador. A escolha não é à toa. Por anos, ele se sentiu como esse coelho, percorrendo vielas e escapando de situações ruins devido a ilegalidade enquanto tentava a vida como atleta. Sua trajetória, inclusive, virou documentário. “The Rabbit Theory”, dos cineastas holandeses Rinske Bosch e Nicole Batteke começou a ser gravado em 2003 e o seguiu até 2007. A primeira exibição em festivais aconteceu em 2010.

“Como um imigrante ilegal, tive que enfrentar diferentes desafios. Fiquei infeliz. Eu estava com medo e não sabia o que fazer. Senti-me abusado, senti-me castigado”

Fonte: https://globoesporte.globo.com/olimpiadas-de-inverno/noticia/de-vendedor-de-aspirador-de-po-a-atleta-olimpico-a-historia-do-ganes-do-skeleton.ghtml

Deixe seu comentário